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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Índio formado em medicina em Maringá está na luta contra a covid-19


O médico Virlei Primo Júnior, 36 anos, formado em medicina pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) se tornou uma referência no enfrentamento à covid-19 no município de Balneário Piçarras, em Santa Catarina. 

Júnior é índio da etnia guarani e está na pequena lista de indígenas que conseguiram concluir o ensino superior no Brasil. O sonho de ser médico e a persistência colocaram Virlei Primo Júnior onde ele queria chegar: em um consultório médico. O índio se sente orgulhoso do trabalho que está fazendo. 

“Para mim é gratificante demais poder ajudar. É algo que ninguém dessa geração e da geração passada viveram. Não tem preço ver meus pacientes se recuperando bem da doença. Hoje eu vejo o quanto meu trabalho é gratificante”, disse ao GMC Online. 

Virlei Primo Júnior é médico da Prefeitura Municipal de Balneário Piçarras, cidade com pouco mais de 23 mil habitantes, no litoral catarinense. O índio atende no Posto de Saúde e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Município. 

Atualmente participa diariamente dos comitês locais de enfrentamento à covid-19 e também ajuda na criação de estratégias junto com outros profissionais do Município. “Quando conto de onde saí ninguém acredita. Não foi nada fácil mas consegui chegar onde eu queria e hoje é uma honra ajudar os moradores a enfrentar essa doença”, afirma orgulhoso. 

Virlei foi aprovado, em 2015, na residência em Florianópolis, onde se especializou em medicina de família e comunidade. A residência o colocou em Balneário Piçarras e quando acabou o curso os moradores chegaram a fazer abaixo-assinado para que ele não voltasse a Maringá. 

“Quando estava acabando a residência a população fez um abaixo-assinado com mais de 600 assinaturas para que eu ficasse na cidade. Viramos uma família. Atendo todos os moradores com muito carinho e como se fossem todos meus familiares. A gente tem conseguido controlar, monitorar os casos de covid-19 aqui no município”, disse. 

Índio demorou 11 anos para se formar 
O preconceito e o sentimento de inferioridade fizeram com que Virlei Primo Júnior demorasse 11 anos para concluir a faculdade de medicina na UEM, que tem uma duração de seis anos. O índio conta que alguns professores não entendiam que ele não tinha a mesma base que os outros estudantes e não o ajudavam no processo. 

“Você entra em um curso extremamente elitizado em que os estudantes possuem um conhecimento absurdo sobre tudo. Eu tive que me esforçar muito e não via por parte dos professores uma ajuda. Eles não flexibilizavam as coisas para que eu pudesse me adaptar. Foram anos muito difíceis e eu não via o apoio. Alguns colegas de curso me ajudavam e isso foi fundamental. Eu não tinha a bagagem que os outros tinham”, relembra. 

Júnior confessa que os dois primeiros anos foram muito complicados, mas após uma mobilização de várias pessoas o sistema de ensino foi flexibilizado e os professores começaram a apoiar mais. 

“Algumas disciplinas desses dois anos eu demorei seis anos para me formar. Foi quando eu procurei ajuda da promotoria de educação [Ministério Público] e aí sim as coisas começaram a acontecer. Tinha professores que diminuíam minha nota só porque eu não conseguia me expressar direito. Eu era muito tímido. Tinha medo dos professores. Via eles como deuses. Eu fui muito forte e não desisti. Sou muito grato à professora Isabel porque ela foi fundamental para que eu conseguisse me formar”, relatou o médico.

Virlei Primo Júnior até se emociona quando se lembra de todo o preconceito que enfrentou na universidade e na vida. “Saí de um lugar que ninguém acreditava em mim. Hoje as pessoas acreditam em mim. Tenho vontade de chorar de tanta emoção quando me lembro disso”, conta emocionado. 


GMC online

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